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Revista de Haicai - Editores: Chris Herrmann e Jiddu Saldanha
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sábado, 12 de fevereiro de 2011



Insistente Aprendiz procura seguir as pegadas dos mestres do haicai

O haicai teve duas vertentes na sua disseminação no país a partir do início do século vinte. A primeira teve origem nos textos de poetas e estudiosos europeus e norteamericanos, encantados com a objetividade dos japoneses e seus três versos curtos ligados à natureza; em meados do século, Millôr Fernandes e Paulo Leminski, entre outros, popularizaram o haicai com sabor brasileiro. A segunda vertente desembarcou no Brasil junto com os imigrantes japoneses, procurando praticá-lo de acordo com os mestres do século dezessete e dezoito e desenvolvendo intenso intercâmbio por meio de grêmios literários e publicações em jornais da colônia, principalmente em São Paulo e no Paraná.

Insistente Aprendiz, o novo livro de haicais de Nelson Savioli, lançado em janeiro pela Editora Qualitymark, demonstra sua modelagem nos grandes mestres japoneses do passado, usando as dezessete sílabas típicas do poema para fazer uma justaposição entre duas sensações, entre o que é permanente e o que é transitório. Os haicais de Savioli não contam tudo, e deixam ao leitor o prazer da sua compreensão, quase uma coautoria. Já que incluem o kigo, ou termo da estação do ano, os haicais são agrupados na primavera. verão, outono e inverno. O livro traz também dez senryu, poemas satíricos escritos de forma mais livre.

Quase uma centena de notas informa em qual contexto os haicais foram escritos e de onde o autor foi buscar a inspiração. Entre os apêndices do livro, destaca-se a palestra “Haicai brasileiro: raízes japonesas, frutos tropicais”, que o autor fez na Academia Brasileira de Letras por ocasião dos festejos do Centenário da Imigração Japonesa, em 1998.

Dois exemplos dos haicais do Insistente Aprendiz:

Um ambientado no verão:

Repentinamente –
o trovão acorda os medos
da minha infância.

E este, com tema de inverno:

Enfim amanhece.
O vigilante e a azaléia
sem trocar palavra.


Perfil do autor:

Em 2007, Savioli publicou o livro “Burajiru Haicais” pela Qualitymark Editora. Ele é autor também de “Carreira: Manual do Proprietário”, “Fracassos em RH – e como se transformaram em casos de sucesso” e “Reflexões sobre o Exemplo”. Foi o executivo principal de Recursos Humanos da Unilever Brasil, Jornal O Globo e Rhodia Brasil. Atualmente é Superintendente Executivo da Fundação Roberto Marinho e diretor voluntário para Assuntos Internacionais da Associação Brasileira de Recursos Humanos.

Insistente Aprendiz (2011)
192 páginas
Preço sugerido: R$ 15,00
Editora: Qualitymark

Para mais informações:
Cláudia Lamego – claudia.lamego@frm.org.br – (21) 3232-8921


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

"Poesia na Quarta Capa" encerra o ano de 2010 em alto estilo

Dia 24 de Novembro foi mais uma noite especial para o projeto Poesia na Quarta Capa. Mais uma vez, o restaurante Sansushi abriu suas portas e recebeu pessoas das mais diferentes tribos e com uma única paixão; o Haicai.

Ganhou a poesia e o ambiente ficou pleno de pessoas das mais diversas correntes artísticas, mostrando o potencial do evento em não se fechar em uma única proposta artística, valorizando a diversidade.


Noite animada, o restaurante Sansushi lotado no terceiro encontro
"Poesia na Quarta Capa" - Foto: Rodrigo Méxas



Projeto "Livro na Mesa" livros de haicai e literatura japonesa
para manuseio do público presente - Foto: Rodrigo Méxas


A bela exposição de fotos de Rodrigo Méxas deu um toque especial e criou um clima muito agradável dentro do restaurante de comida típica japonesa. O Cine Haiga projetado na tela incluía uma parceria onde Jiddu e Rodrigo juntaram imagem e texto produzindo um jogo de luz, cor e som para que o público pudesse desfrutar e conhecer melhor o haicai.

A novidade foi o projeto “Livro na Mesa”, que a cada encontro ganha mais reforço e, desta vez, contou com a doação de 5 livros de Nelson Savioli. “Buragiru”, uma verdadeira pérola da criação de um dos grandes haijins brasileiros da atualidade, foi sorteado entre os frequentadores do restaurante que ficaram felizes.

A noite seguiu divertida e o evento que estava previsto para encerrar as 22h, estendeu-se até às 23:30h.


sexta-feira, 19 de novembro de 2010





Haikus de Ignacio Manuel Sánchez

Tradução de Cristiane Grando


I

El olvido

Sombras del tiempo,
Cúmulos de cenizas
Sobre tu cuerpo


O olvido

Sombras do tempo,
Montes de cinzas
Sobre o teu corpo


II

Ruido de lluvias:
Los altos palmerales
Agitan sus hojas


Ruído de chuvas:
As altas palmeiras
Agitam suas folhas


III

Atlantes

En la otra orilla
La noche que te oculta.
Aquí el sol que brilla.


Atlantes

Na outra orla
A noite que te oculta.
Aqui o sol que brilha.


IV

Luces violentas
Atraviesan los cielos
De las tormentas


Luzes violentas
Atravessam os céus
Das tormentas


V

Atardecer en Castilla

Cielos violetas
Brotan de los picos
De las cigüeñas


Entardecer em Castela

Céus violetas
Brotam dos bicos
Das cegonhas


VI

Insomnio en la tormenta

Brotan del rayo
Fosforescentes sueños
Estrafalarios


Insônia na tormenta

Brotam do raio
Fosforescentes sonhos
Excêntricos


In: “35 haikus, un zéjel y varias redondillas”, de Ignacio Manuel Sánchez. Traduzidos por Cristiane Grando com a autorização do autor.


Ignacio Manuel Sánchez

Nacido en Salamanca (España). En la Universidad de esa ciudad estudió en la Facultad de Letras. Licenciado en Geografía e Historia en la Universidad de Salamanca, en Lengua y Literatura Francesas en la Universidad de Ginebra, es actualmente funcionario del Ministerio de Asuntos Exteriores de España y Caballero de la Orden del Mérito Civil, otorgado por S.M. el Rey de España. Por motivos de trabajo, y también por vocación, ha vivido en diferentes países y en varios continentes. Actualmente reside en Santo Domingo. Casi toda su vida profesional se ha realizado en el exterior: fue Director del Centro Cultural Español en Malabo (Guinea Ecuatorial), Director Provincial de Cultura en la Junta de Castilla y León, Jefe de Visados en la Embajada de España en Dakar (Senegal), Jefe de Visados en el Consulado General de España en Quito (Ecuador) y es, actualmente, Canciller del Consulado General de España en Santo Domingo. En el ámbito cultural, fue Director-Fundador de la revista cultural “El Patio”, editada por el CCHG de Malabo, Director de la revista y de la programación cultural de la emisora de radio “África 2000”, organizador de diversas publicaciones de artículos y relatos en la Revista de Cultura de la Diputación de Ávila, en la revista “Luki Luke” y en diversos medios radiofónicos, Director-Fundador de la editorial “Malamba”, especializada en Literatura Negroafricana. Es autor de “El Áfrika Star” (Editorial Abya Yala, Quito). Actualmente prepara la edición, en colaboración con el artista plástico dominicano Said Musa, del libro “35 haikus, un zéjel y varias redondillas”.

Nascido em Salamanca (Espanha). Na Universidade desta cidade estudou na Faculdade de Letras. Graduado em Geografia e História na Universidade de Salamanca, em Língua e Literatura Francesas na Universidade de Genebra, é atualmente funcionário do Ministerio de Asuntos Exteriores de España e Caballero de la Orden del Mérito Civil, título outorgado pelo Rei da Espanha. Por motivos de trabalho, e também por vocação, viveu em diferentes países e em vários continentes. Atualmente reside em São Domingos. Quase toda a sua vida profissional se realizou no exterior: foi Diretor do Centro Cultural Espanhol em Malabo (Guiné Equatorial), Diretor Provincial de Cultura na Junta de Castilla y León, Cônsul na Embaixada da Espanha em Dakar (Senegal), Cônsul no Consulado Geral da Espanha em Quito (Equador) e é, atualmente, Chanceler do Consulado Geral da Espanha em São Domingos. No âmbito cultural, foi Diretor-Fundador da revista cultural “El Patio”, editada pelo CCHG de Malabo, Diretor da revista e da programação cultural da emissora de rádio “África 2000”, organizador de diversas publicações de artigos e relatos na Revista de Cultura da Diputación de Ávila, na revista “Luki Luke” e em diversos meios radiofônicos, Diretor-Fundador da editorial “Malamba”, especializada em Literatura Negroafricana. É autor de “El Áfrika Star” (Editorial Abya Yala, Quito). Atualmente prepara a edição, em colaboração com o artista plástico dominicano Said Musa, do livro “35 haikus, un zéjel y varias redondillas”.


Algunos links de interés / Alguns links de interesse:

http://es.wikipedia.org/wiki/Centro_Cultural_Hispano-Guineano

http://www.espacioluke.com/Junio2001/sanchez.html


http://books.google.es/books?id=gk756j846nAC&printsec=frontcover&dq=literatura+africana+ignacio+manuel+sanchez+sanchez&source=bl&ots=Ygudda5_rw&sig=X93Ma7sNWVyfsyVhaTTI72QO37o&hl=es&ei=-kPdTOLTC9CwhAfQ2NGODQ&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=6&ved=0CCkQ6AEwBQ#v=onepage&q&f=false

https://lib.utexas.edu/recentarrivals/recent_arrivals.php?start=100&location=la&type=any&language=any&sort_by=date_added&results_per_page=100


Cristiane Grando

Poetisa brasileña. Autora de Fluxus, Caminantes, Titã y Gardens (poesía en portugués, francés, español, catalán e inglés). Laureada UNESCO-Aschberg de Literatura 2002. Doctora en Literatura (USP, São Paulo) con pos-doctorado en Traducción (UNICAMP, Campinas), Brasil, sobre las obras y manuscritos de Hilda Hilst. Profesora de Lengua Portuguesa y Cultura Brasileña invitada por la Universidad Autónoma de Santo Domingo (UASD), República Dominicana, desde 2007. Directora-fundadora del espacio cultural Jardim das Artes (Cerquilho-SP, Brasil, 2004) y del Centro Cultural Brasil – República Dominicana (Santo Domingo, 2009).

(Cerquilho-SP, Brasil, 1974) Escritora brasileira. Autora de Fluxus, Caminantes, Titã e Gardens (poesia em português, francês, espanhol, catalão e inglês). Laureada UNESCO-Aschberg de Literatura 2002. Doutora em Literatura (USP, São Paulo), com pós-doutorado em Tradução (UNICAMP, Campinas), sobre as obras e manuscritos de Hilda Hilst. Professora convidada de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira na Universidad Autónoma de Santo Domingo (UASD) desde 2007. Diretora-fundadora do espaço cultural Jardim das Artes (Cerquilho-SP, Brasil, 2004) e do Centro Cultural Brasil-República Dominicana (São Domingos, 2009).

http://www.letras.s5.com/archivogrando.htm

crisgrando@gmail.com

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terça-feira, 9 de novembro de 2010

sábado, 23 de outubro de 2010

Um Brinde a Benedita Azevedo!
Jiddu Saldanha

Foi um momento ímpar poder realizar o lançamento dos livros “ Silêncio da Tarde” e “Rumor das Ondas” de Benedita Azevedo. Confirmação de mais um espaço dedicado ao haicai e à poesia curta: O restaurante Sansushi, em Sta. Tereza, um dos mais belos e tradicionais bairros do Rio de Janeiro. Tivemos as presenças de Jorge Salomão, Celso Pestana, Antõnio Gutman e o fotógrafo Rodrigo Méxas, além claro de nossa queridíssima Monja zen Eishun que aproveitou o momento para comemorar seu aniversário com muita alegria e o mais puro amor no coração.


Poetas e Fotógrafos brindam no lançamento
dos livros de Benedita Azevedo

Não faltou vinho de qualidade e sushi de primeira e todos puderam se confraternizar e eternizar mais um momento em que o Rio de Janeiro começa acordar para a produção de haicais feitos no estado. Foi um encontro de riqueza poética e descobertas importantes para a prática do haicai. Fizemos a exibição dos Cine Haigas onde a platéia presente pode conhecer belos haicais projetados na tela de haicaístas como Paulo Franchetti, Rosa Clement, José Marins e tantos outros que trouxeram alegria, reflexão e contemplação para este belo momento.

Benedita Azevedo, uma pilha de livros, vinho e muito haicai!

Dentre as alegrias que tivemos, o livro “Silêncios” de Gustavo Felicíssimo, correu de mãos em mãos enquanto explicávamos para a platéia os diversos gêneros de poesia japonesa (tanka, haibun, haicai encadeado, senryu) presentes na belíssima publicação do poeta paulista que, atualmente, reside em Itabuna, Bahia.

Por volta de 22 horas, Benedita despediu-se dos amigos presentes e foi ao encontro de Teruko Oda, no Paraná, para mais uma jornada de haicai naquele estado. Ficamos todos felizes com o lançamento e saímos de lá com um belo sorriso japa da simpáticíssima Tizuko Shiraiwa, dona do restaurante Sansushi que nos contemplou com sua impecável hospitalidade.

Que o haicai siga marcando sua presença no Rio de Janeiro. É o nosso maior desejo!
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sexta-feira, 15 de outubro de 2010





segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Primeiro renga realizado pelos membros da lista HAIKAI, agora com seus encadeamentos comentados pelo prof. Paulo Franchetti

Tarde de verão

1.
Tarde de verão –
Que refrescante
O cheiro da chuva!
2.
A rede na varanda
Balançando retorcida.


* Aqui a ligação é sutil. Há uma continuidade, mas não evidente. O que é sempre melhor. O cheiro da chuva é trazido pelo vento. O vento, ausente, na primeira estrofe e também não referido explicitamente na segunda é que é o elemento de ligação.

2.
A rede na varanda
Balançando retorcida.
3.
A casa vazia.
O cachorro arranca as roupas
Que secam no varal.


* A rede balançando retorcida sugere ausência. Ela está retorcida e talvez isso queira dizer que está vazia há algum tempo. O poeta encadeou em cima da ideia de vazio, de ausência. A casa não é desabitada, como vemos depois. Apenas não há ninguém nela por alguns momentos. O cachorro, sem ninguém que o vigie ou por puro desfastio, ataca as roupas.

3.
A casa vazia.
O cachorro arranca as roupas
Que secam no varal.
4.
Ecoam pela cidade
As vozes do trio-elétrico.


* A excitação do animal fornece o elo para a estrofe seguinte. Não há ninguém ali, talvez porque foram todos para o Carnaval. O barulho da cantoria talvez seja o que excita o cachorro.

4.
Ecoam pela cidade
As vozes do trio-elétrico.
5.
Trilha de montanha
As dores das pernas somem
Ao som da cascata


* Um belo encadeamento, fazendo o renga torcer para outro lado. Alguém se afasta da zoeira da cidade, em direção a um recolhimento nas montanhas. Os cantos de Carnaval são substituídos pelo som da cascata. Correr atrás do trio elétrico cansa, como cansa subir a montanha. Mas o som da cascata alivia a dor do cansaço com a promessa do refrigério. Portanto, é um encadeamento que estabelece um contraste entre dois cenários, um urbano e um rural, e dois ruídos, um excitante outro relaxante.

5.
Trilha de montanha
As dores das pernas somem
Ao som da cascata
6.
A imagem de um Buda
Ondula no espelho d'água.


* Outro belo encadeamento, no qual o afastamento do tema do Carnaval e da cidade se completa. Há uma continuidade: a água da cascata agora forma um espelho de água, no qual se reflete uma imagem de Buda. A sugestão é de um mosteiro ou ermida. O repouso do corpo encontra um equivalente na sugestão do repouso da mente e da alma.

6.
A imagem de um Buda

Ondula no espelho d'água.
7.
Manhã azul -
O povo chega de metrô
À praça da Sé


* Aqui o poeta parece o próprio Bashô. É muito notável este encadeamento. Tínhamos chegado num ponto de grande tensão. Havia o risco de exotismo orientalista, de começarmos a falar de coisas distantes e “poéticas”. Até onde tínhamos chegado, foi ótimo. Se prosseguíssemos no mesmo caminho, dificilmente o renga se manteria vivo. O poeta opera uma virada súbita. O Buda não está mais num mosteiro, mas na Liberdade, em São Paulo, reduto da colônia japonesa. Não há mais trilha de montanha, nem quietude. O Buda está presente em toda parte: no mosteiro e na confusão da praça. Sua imagem ondula igualmente no espelho de água. Alguém poderia dizer que a mente livre a vê tanto em um lugar como em outro. Mas isso seria talvez simbolismo excessivo. Quando a mim, o importante é o contraponto com o tom anterior e o desenvolvimento surpreendente não porque seja “brilhante”, mas por trazer de volta o pé ao chão, ao humilde e imediato. Nisso reside o brilho.da estrofe.

7.
Manhã azul -
O povo chega de metrô
À praça da Sé
8.
A plenos pulmões o pastor
Arrebanha novos fiéis.


* A cena urbana tem continuidade. O link é a imagem do rebanho. A chegada do povo, das centenas de pessoas, é seguida pelo pastor de almas que busca arrebanhar os fiéis saídos do metrô. Não há mais Buda, nem mosteiro, nem serenidade na manhã azul.

8.
A plenos pulmões o pastor
Arrebanha novos fiéis.
Final do dia –
9.
Tantas andorinhas,
Sob um céu de chuva.


* A cena evolui para a noite. No final do dia, o pastor tenta congregar possíveis fiéis, falando alto. No céu, um bando de andorinhas (ou seja, o link ainda é feito pela ideia de rebanho, implícita no verbo arrebanhar) se alimenta, em aparente desordem, com seus ruídos agudos. Talvez seja possível arrebanhar os fiéis, mas não as aves do céu, que não semeiam nem colhem nem ajuntam em celeiros. Ou talvez esse seja o mote do sermão do pastor. O céu de chuva no final do dia dá um fechamento da cena e obriga o renga a tratar da noite, até agora ausente. Algumas estrofes depois, talvez, surja a lua no céu aberto.

9.
Final do dia -
Tantas andorinhas,
Sob um céu de chuva!
10.
O gato sobre a mureta
anda pra lá e pra cá.


* As andorinhas percorrem o céu em várias direções. O gato anda em linha reta sobre a mureta. O movimento dos seres da natureza compõe um quadro interessante, sugerindo a tensão que antecede a chuva.

10.
O gato sobre a mureta
anda pra lá e pra cá.
11.
Madrugada -
Chora na maternidade
o mais novo pai.


* Um belo encadeamento. O caminhar para um lado e para outro encontra seu desenlace no final da tensão do parto. O poeta criou uma continuidade realmente sutil! O pai provavelmente também andava de um lado para outro, como o gato no muro. Esse é o ponto de ligação, que não está explícito, mas ilumina esses cinco versos com a luz do haicai.

11.
Madrugada -
Chora na maternidade
o mais novo pai.
12.
Alguém segue contente
pela neblina da cidade.


* O mundo está em paz. Nasce uma criança na madrugada; alguém atravessa a neblina contente. Como há neblina, ou a pessoa que segue contente é o próprio poeta, ou é outra pessoa e, nesse caso, talvez siga cantando ou assoviando, uma vez que não há percepção visual.

12.
Alguém segue contente
Pela neblina da cidade.
13.
Caminho de casa -
O sol brilhando nas flores
Da acácia-mimosa.


* Acácia-mimosa é kigo de inverno. A cena é uma manhã ou uma tarde de neblina (conforme a pessoa trabalhe à noite ou durante o dia), na qual o calor e a luz do sol de inverno se tornam mais presentes. A acácia floresce em junho e sua florada dura pouco tempo. O brilho passageiro do sol que suplanta a neblina, bem como a brevidade das flores ecoa a alegria da pessoa que caminha, sugerindo transitoriedade.

13.
Caminho de casa –
O sol brilhando nas flores
Da acácia-mimosa.
14.
Na gangorra da praça,
A criança de cachecol.


* A cena se completa. O caminhante de volta a casa atravessa uma praça, na qual floresce a acácia e as crianças brincam na gangorra. Uma delas (talvez as duas que brincam na gangorra ou talvez todas, mas não é isso que o haicai apresenta) de cachecol.

14.
Na gangorra da praça,
A criança de cachecol.
15.
Domingo de outono-
A janela a ser aberta
Mostrará algo novo?


* Quando li, a singularidade da criança de cachecol me chamou mais a atenção. Como se fosse apenas uma, como se o frio se anunciasse – e não estivesse já instalado o inverno. Sem dúvida, ficaria melhor se o primeiro verso fosse algo como “Final de tarde”, ou “Tarde de domingo”. Nesse caso, o clima invernal persistiria e permitiria melhor aproveitamento da imagem. Não foi assim que foi escrita, porém. O que me fez decidir por essa estrofe entre as outras foi a delicada relação que ela estabeleceu com a anterior. O outono é tradicionalmente a estação da maturidade. Há um contraste entre a cena alegre do dístico e a modorra do domingo outonal, em que alguém se pergunta sobre a possibilidade de mudança.

15.
Domingo de outono –
A janela a ser aberta
Mostrará algo novo?
16.
De binóculo o vizinho
Vasculhando a vizinhança.


* O dístico constitui um passo adiante na sequência temporal do poema anterior. Alguém se faz a pergunta, provavelmente um velho. E logo se põe a agir. A cena é descontraída, tem aquele humor inclusivo, que é próprio do haicai.

16.
De binóculo o vizinho
Vasculhando a vizinhança.
17.
Tanto mar...
Um cargueiro vai sumindo
Na linha do horizonte


* A cena se amplia de novo. O verso “tanto mar” tem fortes assonâncias sentimentais, para nós, herdeiros dos portugueses e da sua lírica. O renga se tinge de nostalgia. Em certo sentido, é um encadeamento por contraste: há um agudo contraste entre o vizinho olhando a vizinhança e a visão do cargueiro sumindo no horizonte. Pode ser o mesmo sujeito a olhar as duas coisas. Ou pode ser uma espécie de comentário: enquanto um usa o binóculo para ver a vida dos vizinhos o outro prefere olhar para o horizonte amplo. Um senão dessa escolha podia ser o fato de que esse terceto poderia ser encadeado diretamente com o terceto (e não o dístico anterior). Mas não creio que esse tipo de preocupação nos deva perturbar no momento: as formas de encadear, a sutileza das junções é o que precisamos dominar antes de tudo.

17.
Tanto mar...
Um cargueiro vai sumindo
Na linha do horizonte.
18.
Cai a noite sobre as ondas,
piscam luzes dos faróis...

* Nada estava explícito, mas ao que tundo indica até a inserção deste dístico a cena era diurna. Foi uma bela continuação essa, em que o fim do dia se precipita. A cena se completa: é uma marinha. Um véu de melancolia parece de repente instalar-se no renga.

18.
Cai a noite sobre as ondas,
piscam luzes dos faróis...
Um táxi corre
19.
Por avenidas desertas –
O boêmio ronca.


* Outro encadeamento ótimo! Os faróis marinhos são agora faróis de carros. À melancolia marítima sucede uma cena urbana, trazendo o renga de novo para o nível do chão, do prosaico, bem no espírito do haicai. Se as avenidas estão desertas, é madrugada, ou então é mesmo começo da noite de algum feriado. Mas é mais provável que tenhamos de supor um salto entre o anoitecer do dístico e a madrugada do terceto. Os faróis piscam, os olhos do boêmio já não, pois estão fechados. Há ainda alguma correspondência entre as ondas que refletem a luz dos faróis marítimos e as avenidas desertas, iluminadas pelos faróis dos carros. O último verso é de fato ótimo!

19.
Um táxi corre
Por avenidas desertas –
O boêmio ronca.
20.
Ao amanhecer, um pássaro
que não para de cantar.


* Mais um belo encadeamento! O boêmio ronca e o pássaro canta. Ambos continuamente, supomos. A cena é agora situada no começo do dia e cada um faz o que é de acordo com a sua natureza: o notívago dorme, o pássaro acorda. Ambos se manifestam por meio de um ruído específico. Resulta, desse quadro, uma estranha sensação de que o mundo caminha em ordem - como diria o
Blyth.

20.
Ao amanhecer, um pássaro
que não para de cantar.
21.
Céu limpo -
Os olhos das vacas brancas
acompanhando a menina.


* A cena se completa no campo, ou nos subúrbios. Uma menina caminha, vai para a escola talvez, os pássaros cantam e as vacas olham. É algo muito plácido, suave, no qual tudo se integra. Apenas uma nota dissonante: o pássaro no singular. Algo fica um pouco estranho, pois é difícil imaginar um só pássaro cantando ao amanhecer. A singularização do pássaro produz um efeito curioso: seria aquele no qual a menina presta atenção, enquanto as vacas prestam atenção nela?

21.
Céu limpo -
Os olhos das vacas brancas
acompanhando a menina.
22.
À sombra do cogumelo
o inseto se abriga.


* Já não é manhã. O céu está limpo, portanto há sol. As vacas parecem agora modorrentas, olhando o movimento da menina. Dá para imaginar a ruminação interrompida e o olhar de atenção das vacas. Eu preferiria que fosse, no dístico, "um inseto" ou então que ele fosse nomeado. Mas da forma como está não está mal: agora é o olhar da menina que percebe o inseto se abrigando do calor do sol sob a sombra do cogumelo. Quando li, imaginei (vejam o que é a imaginação!) que a menina estava de sombrinha e que o inseto e ela tinham alguma homologia.

22.
À sombra do cogumelo
o inseto se abriga.
23.
paineira florida
a mulher de sombrinha
passa devagar


* Agora sim, o encadeamento é por homologia. O inseto está embaixo do cogumelo como a mulher embaixo da sombrinha. Tudo é uma espécie de guarda-chuva: o cogumelo, a sombrinha propriamente dita e até a paineira sobre o inseto e sobre a mulher de sombrinha.

23.
Paineira florida
a mulher de sombrinha
passa devagar.
24.
no meio da tarde
súbito sopra o vento frio


* Outro encadeamento interessante. As paineiras florescem até abril e formam as bolas de paina no inverno. No encadeamento, o tom é outonal. É a primeira rajada do vento de outono. Mas a pessoa usa sombrinha, então ainda há sol quente. O quadro, com a introdução do outono, permite imaginar agora que a mulher de sombrinha não caminha devagar para olhar as flores, mas por conta
da velhice.

24.
No meio da tarde
súbito sopra o vento frio
Rua de subúrbio -
25.
Saem mães preocupadas
chamando seus filhos.


* Uma súbita mudança de tempo desperta o cuidado materno. A concretude da imagem elimina a melancolia do outono, substituída pela agitação das mães, que dá movimento e uma leve tonalidade dramática ao quadro. É próprio do renga renovar-se, encontrar caminhos surpreendentes.

25.
Rua de subúrbio -
Saem mães preocupadas
Chamando seus filhos.
26.
Vem do ninho o piado
à espera de alimento.


* Mais um encadeamento muito bom. O ponto é 'maternidade'. As mães chamam os filhos; os filhotes de passarinho chamam as mães. Há uma figuração especular, que sugere a unidade do mundo.

26.
Vem do ninho o piado
à espera de alimento.
27.
Névoa da manhã -
Aqui e ali o vulto branco
Do gado no pasto.


* Uma paisagem de paz e renascimento. Ouve-se o piado que vem do ninho, oculto pela névoa espessa, que também domina o pasto. Os pássaros esperam por alimento; o gado se alimenta no pasto. A névoa recobre tudo. A relação entre as estrofes é por semelhança.

27.
Névoa da manhã -
Aqui e ali o vulto branco
Do gado no pasto.
28.
Há sorrisos e covinhas
na Primeira Comunhão.


* O encadeamento é sutil. Manhã de névoa da ideia de primavera. A ideia de renascimento e juventude ecoa na infância. A cena é campestre. A comunhão do homem com a natureza, a unidade do mundo é sugerida por essa cena de brancura em que passamos insensivelmente do que domínio do natural para o da iniciação religiosa.

28.
Há sorrisos e covinhas
Na Primeira Comunhão.
29.
Almoço festivo -
Roupas brancas das crianças
Manchadas de molho.


* O encadeamento completa o quadro, fazendo avançar o relógio até a hora do almoço. A cena se completa com o registro do molho sobre a roupa branca. Embora não haja encadeamento com as estrofes anteriores à que serviu de base, não deixa de ser sugestiva essa concretização da cor através do branco. Agora tudo se vê, inclusive as manchas na roupa.

29.
Almoço festivo -
Roupas brancas das crianças
Manchadas de molho.
30.
A passeata da paz
Na praia de Copacabana.


* A cena parecia campestre. Recebe agora um novo rumo. Estamos em plena cidade. O assunto religioso foi deixado para trás. O branco agora é das roupas de uma caminhada pela paz. É sobre o branco que se faz o encadeamento, mas a reviravolta é notável: deslocando o tema e o cenário, preserva o clima de inclusão, de harmonia, em que ocorrem as marcas prosaicas da vida, nas manchas devidas à alimentação das crianças.

30.
A passeata da paz
Na praia de Copacabana.
31.
Noite de primavera -
Um desejo de abraçar
o filho que partiu.


* O tom subitamente se torna triste, pesado, melancólico. Qual a ligação entre a passeata da paz e o desejo de abraçar o filho que partiu? É o clima de congraçamento, que faz sentir ainda mais a distância? Ou o filho já não vive, é uma das vítimas da guerra ou da violência contra a qual se protesta?

31.
Noite de primavera –
Um desejo de abraçar
O filho que partiu.
32.
Pela janela do quarto,
O perfume do lírio-branco.


* A lembrança do filho ausente se intensifica na noite de primavera, estação que se associa ao renovar da vida e das energias, após o inverno. O quarto está, porém, vazio. O intenso perfume do lírio antes indica a falta que o preenchimento. Não se vê nem o filho, nem o lírio. Mas sente-se, de alguma forma, intensamente, a presença de ambos.

32.
Pela janela do quarto,
O perfume do lírio-branco.
33.
A última página
do livro de cabeceira -
Silêncio e penumbras.


* O encadeamento dá novo rumo ao renga, que estava ficando preso a clima de tristeza. A cena agora é de modorra, de conforto.

33.
A última página
Do livro de cabeceira –
Silêncio e penumbras.
34.
Passo o final do dia
Pensando no outro dia...


* Já não é noite, como há algumas estrofes, mas entardecer. Subitamente, parece que saltamos para o outono. A cena tem um algo melancólico. Se fosse “pensando nos outros dias”, seria decididamente melancólica. Como está, existe a ambiguidade de o outro dia estar no futuro. O encadeamento se fez a partir do silêncio e da indefinição da hora, entre dia e noite.

34.
Passo o final do dia
Pensando no outro dia...
35.
Brinquedos no chão -
O avô sorri sozinho
tomando café.


* A melancolia se foi. O avô se lembra do dia passado com o neto, ou antecipa o próximo dia que passará com ele.

35.
Brinquedos no chão –
O avô sorri sozinho
Tomando café.
36.
Uma cigarra cantando
Vem aí outra estação.


* Um ótimo final para o nosso primeiro renga: renovam-se as gerações dos homens, assim como a natureza, por meio das estações. Assim também o nosso renga se foi renovando ao longo das 36 estrofes.

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domingo, 10 de outubro de 2010

O primeiro renga da lista HAIKAI, coordenada pelo prof. Paulo Franchetti e Rosa Clement


Tarde de verão
Início: 02.02.2010
Término: 04.10.2010

1.
Tarde de verão -
Que refrescante
O cheiro da chuva!

[ Celso Pestana ]

2.
A rede na varanda
Balançando retorcida.

[ José Marins ]

3.
A casa vazia.
O cachorro arranca as roupas
Que secam no varal.

[ Antonio Ezequiel ]

4.
Ecoam pela cidade
As vozes do trio-elétrico.

[ Paulo Franchetti ]

5.
Trilha de montanha
As dores das pernas somem
Ao som da cascata

[ Rosa Clement ]

6.
A imagem de um Buda
Ondula no espelho d’água.

[ Antonio Ezequiel ]

7.
Manhã azul -
O povo chega de metrô
À praça da Sé

[ Celso Pestana ]

8.
A plenos pulmões o pastor
Arrebanha novos fiéis.

[ Antonio Ezequiel ]

9.
Final do dia -
Tantas andorinhas,
Sob um céu de chuva!

[ Paulo Franchetti ]

10.
O gato sobre a mureta
anda pra lá e pra cá.

[ Benedita Azevedo ]

11.
Madrugada -
Chora na maternidade
o mais novo pai.

[ Chris Herrmann ]

12.
Alguém segue contente
pela neblina da cidade.

[ Solange Yokoyawa ]

13.
Caminho de casa -
O sol brilhando nas flores
Da acácia-mimosa.

[ Paulo Franchetti ]

14.
Na gangorra da praça,
a criança de cachecol

[ Jiddu Saldanha ]

15.
Domingo de outono-
a janela a ser aberta
mostrará algo novo?

[ Solange Yokoyawa ]

16.
De binóculo o vizinho
Vasculhando a vizinhança.

[ Benedita Azevedo ]

17.
Tanto mar…
Um cargueiro vai sumindo
Na linha do horizonte

[ Celso Pestana ]

18.
Cai a noite sobre as ondas,
piscam luzes dos faróis …

[ Guin Ga ]

19.
Um táxi corre
Por avenidas desertas -
O boêmio ronca.

[ Celso Pestana ]

20.
Ao amanhecer, um pássaro
que não para de cantar.

[ Rafael Noris ]

21.
Céu limpo -
Os olhos das vacas brancas
acompanhando a menina.

[ Solange Yokoyawa ]

22.
À sombra do cogumelo
o inseto se abriga.

[ Antonio Ezequiel ]

23.
Paineira florida
a mulher de sombrinha.
passa devagar.

[ José Marins ]

24.
No meio da tarde
súbito sopra o vento frio.

[ Carlos Viegas ]

25.
Rua de subúrbio –
Saem mães preocupadas
chamando seus filhos.

[ Guin Ga ]

26.
Vem do ninho o piado
à espera de alimento.

[ Chris Herrmann ]

27.
Névoa da manhã -
Aqui e ali o vulto branco
Do gado no pasto.

[ Paulo Franchetti ]

28.
Há sorrisos e covinhas
na Primeira Comunhão.

[ Chris Herrmann ]

29.
Almoço festivo
Roupas brancas das crianças
Manchadas de molho.

[ Carlos Viegas ]

30.
A passeata da paz
Na praia de Copacabana.

[ Celso Pestana ]

31.
Noite de primavera –
Um desejo de abraçar
o filho que partiu.

[ Ceci Matsu ]

32.
Pela janela do quarto,
O perfume do lírio-branco.

[ Paulo Franchetti]

33.
A última página
do livro de cabeceira -
Silêncio e penumbras.

[ Chris Herrmann ]

34.
Passo o final do dia
Pensando no outro dia…

[ Rafael Noris ]

35.
Brinquedos no chão -
O avô sorri sozinho
tomando café.

[ Chris Herrmann ]

36.
Uma cigarra cantando
Vem aí outra estação.

[ Celso Pestana ]

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sansushi
Celso Pestana

O pequeno “Sansushi” ainda estava vazio. Numa mesa lá atrás, um homem vigiava a entrada, como quem espera por alguém. Quando se certificou de quem éramos, abriu um sorriso e veio nos cumprimentar, mostrando o efeito que lhe causou o bigode e o cavanhaque que venho cultivando:

– Pestana? Mas você parece o Leminski!


Benedita Azevedo, Jiddu Saldanha e Celso Pestana

Jiddu Saldanha, ao vivo e a cores, tem o mesmo jeitão a que nos habituamos na internet: afável, bom de papo, sempre mostrando entusiasmo ao falar de atividades culturais, tanto as suas como as alheias. Sobre a mesa em que nos convidou a sentar, o masu e o rashi sobre uma travessa com sinais de sushi dividiam o espaço com uma pilha de livros, todos sobre haikai e tanka, que ele fazia questão de mostrar, um por um, a quem ia chegando: Saigyô, Masao Ohno, Leminski, Alice Ruiz, Benedita Azevedo...

Benedita Azevedo com sua filha e Tizuko Shiraiwa ao fundo

Benedita, aliás, chegou tarde, mas transformou o evento numa noite de autógrafos do seu mais novo livro, “Rumor das Ondas” - José Marins, seu editor, vai acabar tendo uma estafa.



Benedita Azevedo autografando

Tizuko, a simpaticíssima dona do restaurante - e, a meu ver, uma dessas pessoas especiais - veio jantar conosco, animando mais ainda o bate-papo - comentários sobre os livros, sobre esse ou aquele poeta, sobre o Butoh que víamos na TV, etc. -, fazendo da nossa mesa o “centro nervoso” do evento.


Tizuko Shiraiwa, proprietária do restaurante Sansushi, em santa tereza/RJ.
Apaixonada pela literatura nipo-brasileira,em especial, a poesia


Só quando o Jiddu exibiu o cine-haiga “Haigatos”, tive uma decepção: embora o meu terceto abra o clipe, Dada, minha mui amada esposa, achou o haigato do Tchello d’ Barros mais bonito. Mas nem esse desgosto tornará a noite menos memorável.


Jiddu Saldanha, Celso Pestana e sua esposa Graça

Valeu, Jiddu. Valeu, Tizuko.

Viveiro de pássaros -
O tico-tico almoça
Sem ser convidado.

Benedita Azevedo

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segunda-feira, 27 de setembro de 2010




IMPRESSÃO DE LEITURA
Jiddu Saldanha


Poemas da Cabana Montanhesa
-Saigyo-
Tradução: Nissin Cohen
Editora Hedra

Tenho em mãos um belo livro de tankas do poeta japonês Saigyo Hoshi, “Poemas da Cabana Montanhesa” um presente do meu amigo José Martim Estefanon do Museu do Imigrante da cidade de Bento Gonçalves/RS. Um presente inesperado que encheu meu coração de amor e me fez navegar pelo mar desconhecido por mim, da poesia clássica do Japão.

Durante a leitura deparei-me com momentos de grande prazer existencial, como quando estava no avião voltando ao Rio de Janeiro e li quase em deleite este belo poema:


Espaço vazio rodeado
Por penedos, tão longe
Que aqui estou todo sozinho:
Um lugar onde ninguém pode me ver
Mas eu posso todas as coisas rever:

[Saigyo – Tradução: Nissin Kohen]

O livro é uma realização da editora Hedra e merece toda a atenção do leitor, porque além de ser bonito (para aqueles que apreciam livros também como objeto) e com ótimas notas sobre a história do Japão medieval; nos remete a imagens muito claras e profundas sobre o mundo e o contexto histórico em que o poeta viveu.

Recentemente, no restaurante Sansushi, no belíssimo bairro de Santa Tereza /RJ, enquanto conversávamos sobre literatura japonesa, citei Saigyo e, entre os amigos presentes, pude sentir a curiosidade de todos enquanto manuseavam o livro, tanto que o poeta Celso Pestana até sugeriu que eu fizesse uma resenha para a revista Nosso Haikai.

Embora eu não tenha nenhuma pretensão de me tornar um “resenhador” de livros, deixo a você, caro leitor da Nosso Haikai, uma provocação para que conheça o livro deste monumental poeta japonês cuja obra atravessou o tempo e chegou até nós com sabor de eternidade.

Sagyo nasceu em Kyoto 1118 e morreu em Osaka 1190. Seu nome é um pseudônimo (ou “nome poético” como é de costume entre poetas japoneses) de Sato Norikiyo. Ele pertenceu a uma casta de samurais do clã Fujiwara e seu pai fora um oficial da guarda dos portões do palácio imperial.

O poeta seguiu a vida militar e quando ia completar 23 anos, resolveu, por razões inexplicadas, trilhar o caminho da poesia. Viveu 72 anos e é festejado até hoje como um dos grandes nomes da poesia japonesa de todos os tempos.

Rasteando-se no vento,
A fumaça do Monte Fuji
Dissolve-se no céu.
Assim também meus pensamentos –
Seu lugar-de-repouso é desconhecido.

[Saigyo – Tradução: Nissin Kohen]

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domingo, 26 de setembro de 2010

Dois dias para não mais esquecermos
Jiddu Saldanha

Foi uma ótima experiência estar no restaurante Sansushi nos dias 24 e 25 de Setembro de 2010, no bairro de Santa Tereza, RJ e compartilhar com as pessoas que estiveram lá aquele dia tão especial para a leitura e troca de idéias sobre Haicai, Haigas, Haibuns e tankas. Foi um momento especial que nos uniu e nos transformou através de uma prática onde escrever por si só, não basta. O haicai é uma poesia sentida, vivida e transpirada na labuta da existência.


Um papo sobre poesia japonesa, espiritualidade, não faltou sensação de alegria e tranquilidade.

Lá estiveram os poetas Celso Pestana, Benedita Azevedo, Gracia Levine, o fotógrafo Rodrigo Méxas além da forte presença espiritual de Monja Zen que, de forma muito generosa abriu nossa sensibilidade para uma reflexão sobre a real presença do zen muito além das especulações cotidianas.

Também esteve conosco a querida poeta Mônica Terra com seu tom xamânico e irreverente, chamando para o contato e o encantamento através da literatura. Tivemos uma ótima recepção do grupo de funcionários da casa: Claudinho, o gerente, deu lições de arte com sua forma bonita de declamar e a Jaqueline que servia com grande competência suculentos sushis, sahsimis,etc... não sem apreciar a beleza da poesia japonesa. Não podemos deixar de marcar a presença da bela “afrojapa” paulistana Bianca, professora de moda que nos brindou com sua presença e curiosidade em conhecer melhor a poesia que seus avós trouxeram para o Brasil.

Não podemos deixar de agradecer a querida parceira de haiga, Alexandra Arakawa que foi quem disparou a idéia e o conceito do projeto palimpsesto. A dona da casa que nos recebeu tão bem foi a queridíssima Tizuko Shiraiwa que além de conhecer e amar a literatura japonesa, no mostrou belas obras de sua coleção pessoal e presenteou a revista Nosso Haikai com livro da Sra. Geny Wakisaka, sobre o Man’ yôshû; um estudo sobre a antologia japonesa organizada no século VII e XIII, dando uma ótima noção dos primórdios da poesia naquele país. Tizuko também nos apresentou à obra do poeta Tokuboku Ishikawa (1885 – 1912) contemporâneo do poeta modernista japonês Masaoka Shiki (1865 – 1902).

Agora, estamos nos preparando para reeditar o recital Poesia na Quarta Capa, que ganhará espaço no restaurante Sansushi, com sua volta prevista para o dia 20 de outubro deste ano, num ousado formato onde juntaremos a poesia ocidental e oriental. Aguardem.

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sábado, 25 de setembro de 2010



Cine Haiga "PALIMPSESTO"


[clique na imagem para vê-la em tamanho natural]

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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Os Passos do Tanka
por Rosa Clement

História

Tanka, é um termo de origem japonesa que significa "poema pequeno e elegante". Evoluiu a partir do waka, um tipo de poesia japonesa, escrito por nobres e aristocratas da corte Heian centrada em Kyoto durante o século XII. O waka refletia os tempos, lugares, pessoas, sociedades e vidas dos seus autores. No incio de 1900, o waka passou a ser chamado de tanka por reformadores como Tekkan Yosano, Yosano Akiko, Masaoka Shiki, e outros, sendo tanka, portanto, um termo relativamente novo. Conhecido como waka até aquele período, foi a forma de poesia do Japão praticada por mil anos e ainda hoje é bastante popular. O tanka foi uma das principais formas usadas para transmitir mensagens de amor, desejo e gratidão de um amante para outro.

Os primeiros tanka foram publicados no século oito, A.D., na Antologia Manyoshu, a primeira grande antologia de poesia japonesa, e em seguida na antologia Kokinshu, publicada no século 10, usando estruturas muito popular na época. Aqui está um exemplo (versão traduzida por mim) por Kakinomoto Hitomaro, o mais famoso poeta do Manyoshu, mostrada na estrutura que conhecemos:

the autumn wind
has become cooler now;
horses abreast
let´s go to the meadow
to see the hagi blooms

o vento de outono
tornou-se mais frio agora;
cavalos lado a lado
vamos para o campo
olhar as flores de hagi (um pequeno tubérculo com flores pequenas e rosadas)

Masaoka Shiki tentou modernizar o tanka também assim como fez com o haiku, isto é, preferia escrevê-las de forma mais simples e menos romântica do que os tankas do Manyoshu. Inclusive, ele deu um título a este poema, coisa que nunca foi necessária no tanka.

The Tea

crowding night
weary with the work
of writing things
blew the fire to life
and drank some tea

O Chá

passando a noite
cansado com o trabalho
de escrever coisas
soprei o fogo para a vida

e bebi um pouco de chá

Yosano Akiko, uma das grandes expressões do período romântico na virada do século, não hesitou em quebrar o tabu ao escrever poemas mais sensuais:

You have yet to touch
This soft flesh,
This throbbing blood --
Are you not lonely,
Expounder of the Way?

Você precisa tocar
Esta carne macia,
Este sangue pulsando --
Você não está só,
Expositor do Caminho?

No ocidente há diversos escritores de tanka, entre eles, destacamos o grupo americano que pratica o tanka há alguns anos. Aqui está um tanka de um de seus principais praticantes Michael McClintock:

leading my horse
to the river at midnight
scattered stars
in such impossible numbers
we don't mind drinking a few

levando o meu cavalo
para o rio à meia-noite
estrelas espalhadas
com tais números impossíveis
não importa se bebemos um pouco

Enfim, há muitos escritores de tanka que deixamos de mencionar.


Definição

Tanka é um poema composto de cinco linhas, geralmente sem rima. A forma mais frequentemente citada é com 5, 7, 5, 7, 7 sílabas em cada linha, resultando em um comprimento total de 31 sílabas para o poema. Alguns seguem essa forma estritamente. A forma mais solta do tanka é o truncamento do comprimento de 31 sílabas de modo que uma, várias ou todas as cinco linhas são mais curtos do que os seus comprimentos formalmente prescritos. É essencial que as cinco frases sejam coerentes, não apenas uma lista e integradas em um poema unificado. A quinta linha deve ser a mais forte.


Conteúdo

Tanka difere de outros gêneros da poesia japonesa tanto em forma como em conteúdo. Pode ser um poema lírico já que foi a forma para expressar não somente louvor sobre amor impossível entre os amantes, mas também perda, saudade, e aspectos semelhantes da nossa vida emocional. Pode fazer uma ligação entre alguns aspecto da natureza e alguns aspectos da vivência humana, geralmente, as emoções. O assunto ou estilo de tanka não precisa ser limitado a esses. Muitos estilos e temas ainda não foram explorados em tanka, mas deveriam ser. Um exemplo é a crítica social que certamente pode funcionar muito bem sob a forma tanka.

Como o haiku, o tanka não tem título, rimas no final da linha, palavras capitalizadas, ponto final e faz uso de pouca pontuação. Pode ter mas não é necesssário: linha pivô ou zeugma, mudança de visão durante o poema, pausa após qualquer linha, encadeamento (emjambment), analogia entre natureza e natureza humana, metáforas, símiles, personificações e pode ainda contar apenas o meio de uma história, não a história completa. A maioria dos tanka é escrita na primeira pessoa.

Um tanka pode ser escrito basicamente como um haiku para as linhas 1, 2, 3, que trata de um assunto natural e, em seguida, mais duas linhas que pode lidar com uma experiência humana de forma que tenha ressonância metafórica, simbólica, ou outra com o haiku.

Linha pivô ou zeugma, geralmente a linha 3, é uma característica do tanka que pode estar ou não presente. A linha pivô pode ser lida com a linha 1 e 2 , e também com as linhas 4 e 5, uma propriedade que pode ser usada para introduzir ambigüidade e ressonância no poema.


Conclusão

Escrever tanka não é somente colocar juntos dois haiku. Tanka é um tipo de poesia própria para expressar não apenas os sentimentos de amor, mas também outros sentimentos como você mesmo pode descobrir. No tanka há uma troca de tempo, pessoa, voz, etc. com a finalide de criar uma nova relação.

O texto acima é uma breve introdução ao tanka e como tal, oferece apenas um apanhado geral para quem deseja começar a escrever tanka de imediato. No entanto, há muito mais para conhecer, aprender e praticar.


Bibliografia


* Garrison, Denis M.. Tanka Teachers Guide. USA.2007. ww.modernenglishtankapress.com
* Higginson, William. J. The Haiku Handbook. Kodansha International. 1985.
* Reichhold, Jane. Writing and Enjoying Haiku : A Hands-on Guide. US: Oxford
University Press, 2002.

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