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Revista de Haicai - Editores: Chris Herrmann e Jiddu Saldanha
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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sansushi
Celso Pestana

O pequeno “Sansushi” ainda estava vazio. Numa mesa lá atrás, um homem vigiava a entrada, como quem espera por alguém. Quando se certificou de quem éramos, abriu um sorriso e veio nos cumprimentar, mostrando o efeito que lhe causou o bigode e o cavanhaque que venho cultivando:

– Pestana? Mas você parece o Leminski!


Benedita Azevedo, Jiddu Saldanha e Celso Pestana

Jiddu Saldanha, ao vivo e a cores, tem o mesmo jeitão a que nos habituamos na internet: afável, bom de papo, sempre mostrando entusiasmo ao falar de atividades culturais, tanto as suas como as alheias. Sobre a mesa em que nos convidou a sentar, o masu e o rashi sobre uma travessa com sinais de sushi dividiam o espaço com uma pilha de livros, todos sobre haikai e tanka, que ele fazia questão de mostrar, um por um, a quem ia chegando: Saigyô, Masao Ohno, Leminski, Alice Ruiz, Benedita Azevedo...

Benedita Azevedo com sua filha e Tizuko Shiraiwa ao fundo

Benedita, aliás, chegou tarde, mas transformou o evento numa noite de autógrafos do seu mais novo livro, “Rumor das Ondas” - José Marins, seu editor, vai acabar tendo uma estafa.



Benedita Azevedo autografando

Tizuko, a simpaticíssima dona do restaurante - e, a meu ver, uma dessas pessoas especiais - veio jantar conosco, animando mais ainda o bate-papo - comentários sobre os livros, sobre esse ou aquele poeta, sobre o Butoh que víamos na TV, etc. -, fazendo da nossa mesa o “centro nervoso” do evento.


Tizuko Shiraiwa, proprietária do restaurante Sansushi, em santa tereza/RJ.
Apaixonada pela literatura nipo-brasileira,em especial, a poesia


Só quando o Jiddu exibiu o cine-haiga “Haigatos”, tive uma decepção: embora o meu terceto abra o clipe, Dada, minha mui amada esposa, achou o haigato do Tchello d’ Barros mais bonito. Mas nem esse desgosto tornará a noite menos memorável.


Jiddu Saldanha, Celso Pestana e sua esposa Graça

Valeu, Jiddu. Valeu, Tizuko.

Viveiro de pássaros -
O tico-tico almoça
Sem ser convidado.

Benedita Azevedo

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segunda-feira, 27 de setembro de 2010




IMPRESSÃO DE LEITURA
Jiddu Saldanha


Poemas da Cabana Montanhesa
-Saigyo-
Tradução: Nissin Cohen
Editora Hedra

Tenho em mãos um belo livro de tankas do poeta japonês Saigyo Hoshi, “Poemas da Cabana Montanhesa” um presente do meu amigo José Martim Estefanon do Museu do Imigrante da cidade de Bento Gonçalves/RS. Um presente inesperado que encheu meu coração de amor e me fez navegar pelo mar desconhecido por mim, da poesia clássica do Japão.

Durante a leitura deparei-me com momentos de grande prazer existencial, como quando estava no avião voltando ao Rio de Janeiro e li quase em deleite este belo poema:


Espaço vazio rodeado
Por penedos, tão longe
Que aqui estou todo sozinho:
Um lugar onde ninguém pode me ver
Mas eu posso todas as coisas rever:

[Saigyo – Tradução: Nissin Kohen]

O livro é uma realização da editora Hedra e merece toda a atenção do leitor, porque além de ser bonito (para aqueles que apreciam livros também como objeto) e com ótimas notas sobre a história do Japão medieval; nos remete a imagens muito claras e profundas sobre o mundo e o contexto histórico em que o poeta viveu.

Recentemente, no restaurante Sansushi, no belíssimo bairro de Santa Tereza /RJ, enquanto conversávamos sobre literatura japonesa, citei Saigyo e, entre os amigos presentes, pude sentir a curiosidade de todos enquanto manuseavam o livro, tanto que o poeta Celso Pestana até sugeriu que eu fizesse uma resenha para a revista Nosso Haikai.

Embora eu não tenha nenhuma pretensão de me tornar um “resenhador” de livros, deixo a você, caro leitor da Nosso Haikai, uma provocação para que conheça o livro deste monumental poeta japonês cuja obra atravessou o tempo e chegou até nós com sabor de eternidade.

Sagyo nasceu em Kyoto 1118 e morreu em Osaka 1190. Seu nome é um pseudônimo (ou “nome poético” como é de costume entre poetas japoneses) de Sato Norikiyo. Ele pertenceu a uma casta de samurais do clã Fujiwara e seu pai fora um oficial da guarda dos portões do palácio imperial.

O poeta seguiu a vida militar e quando ia completar 23 anos, resolveu, por razões inexplicadas, trilhar o caminho da poesia. Viveu 72 anos e é festejado até hoje como um dos grandes nomes da poesia japonesa de todos os tempos.

Rasteando-se no vento,
A fumaça do Monte Fuji
Dissolve-se no céu.
Assim também meus pensamentos –
Seu lugar-de-repouso é desconhecido.

[Saigyo – Tradução: Nissin Kohen]

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domingo, 26 de setembro de 2010

Dois dias para não mais esquecermos
Jiddu Saldanha

Foi uma ótima experiência estar no restaurante Sansushi nos dias 24 e 25 de Setembro de 2010, no bairro de Santa Tereza, RJ e compartilhar com as pessoas que estiveram lá aquele dia tão especial para a leitura e troca de idéias sobre Haicai, Haigas, Haibuns e tankas. Foi um momento especial que nos uniu e nos transformou através de uma prática onde escrever por si só, não basta. O haicai é uma poesia sentida, vivida e transpirada na labuta da existência.


Um papo sobre poesia japonesa, espiritualidade, não faltou sensação de alegria e tranquilidade.

Lá estiveram os poetas Celso Pestana, Benedita Azevedo, Gracia Levine, o fotógrafo Rodrigo Méxas além da forte presença espiritual de Monja Zen que, de forma muito generosa abriu nossa sensibilidade para uma reflexão sobre a real presença do zen muito além das especulações cotidianas.

Também esteve conosco a querida poeta Mônica Terra com seu tom xamânico e irreverente, chamando para o contato e o encantamento através da literatura. Tivemos uma ótima recepção do grupo de funcionários da casa: Claudinho, o gerente, deu lições de arte com sua forma bonita de declamar e a Jaqueline que servia com grande competência suculentos sushis, sahsimis,etc... não sem apreciar a beleza da poesia japonesa. Não podemos deixar de marcar a presença da bela “afrojapa” paulistana Bianca, professora de moda que nos brindou com sua presença e curiosidade em conhecer melhor a poesia que seus avós trouxeram para o Brasil.

Não podemos deixar de agradecer a querida parceira de haiga, Alexandra Arakawa que foi quem disparou a idéia e o conceito do projeto palimpsesto. A dona da casa que nos recebeu tão bem foi a queridíssima Tizuko Shiraiwa que além de conhecer e amar a literatura japonesa, no mostrou belas obras de sua coleção pessoal e presenteou a revista Nosso Haikai com livro da Sra. Geny Wakisaka, sobre o Man’ yôshû; um estudo sobre a antologia japonesa organizada no século VII e XIII, dando uma ótima noção dos primórdios da poesia naquele país. Tizuko também nos apresentou à obra do poeta Tokuboku Ishikawa (1885 – 1912) contemporâneo do poeta modernista japonês Masaoka Shiki (1865 – 1902).

Agora, estamos nos preparando para reeditar o recital Poesia na Quarta Capa, que ganhará espaço no restaurante Sansushi, com sua volta prevista para o dia 20 de outubro deste ano, num ousado formato onde juntaremos a poesia ocidental e oriental. Aguardem.

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sábado, 25 de setembro de 2010



Cine Haiga "PALIMPSESTO"


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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Os Passos do Tanka
por Rosa Clement

História

Tanka, é um termo de origem japonesa que significa "poema pequeno e elegante". Evoluiu a partir do waka, um tipo de poesia japonesa, escrito por nobres e aristocratas da corte Heian centrada em Kyoto durante o século XII. O waka refletia os tempos, lugares, pessoas, sociedades e vidas dos seus autores. No incio de 1900, o waka passou a ser chamado de tanka por reformadores como Tekkan Yosano, Yosano Akiko, Masaoka Shiki, e outros, sendo tanka, portanto, um termo relativamente novo. Conhecido como waka até aquele período, foi a forma de poesia do Japão praticada por mil anos e ainda hoje é bastante popular. O tanka foi uma das principais formas usadas para transmitir mensagens de amor, desejo e gratidão de um amante para outro.

Os primeiros tanka foram publicados no século oito, A.D., na Antologia Manyoshu, a primeira grande antologia de poesia japonesa, e em seguida na antologia Kokinshu, publicada no século 10, usando estruturas muito popular na época. Aqui está um exemplo (versão traduzida por mim) por Kakinomoto Hitomaro, o mais famoso poeta do Manyoshu, mostrada na estrutura que conhecemos:

the autumn wind
has become cooler now;
horses abreast
let´s go to the meadow
to see the hagi blooms

o vento de outono
tornou-se mais frio agora;
cavalos lado a lado
vamos para o campo
olhar as flores de hagi (um pequeno tubérculo com flores pequenas e rosadas)

Masaoka Shiki tentou modernizar o tanka também assim como fez com o haiku, isto é, preferia escrevê-las de forma mais simples e menos romântica do que os tankas do Manyoshu. Inclusive, ele deu um título a este poema, coisa que nunca foi necessária no tanka.

The Tea

crowding night
weary with the work
of writing things
blew the fire to life
and drank some tea

O Chá

passando a noite
cansado com o trabalho
de escrever coisas
soprei o fogo para a vida

e bebi um pouco de chá

Yosano Akiko, uma das grandes expressões do período romântico na virada do século, não hesitou em quebrar o tabu ao escrever poemas mais sensuais:

You have yet to touch
This soft flesh,
This throbbing blood --
Are you not lonely,
Expounder of the Way?

Você precisa tocar
Esta carne macia,
Este sangue pulsando --
Você não está só,
Expositor do Caminho?

No ocidente há diversos escritores de tanka, entre eles, destacamos o grupo americano que pratica o tanka há alguns anos. Aqui está um tanka de um de seus principais praticantes Michael McClintock:

leading my horse
to the river at midnight
scattered stars
in such impossible numbers
we don't mind drinking a few

levando o meu cavalo
para o rio à meia-noite
estrelas espalhadas
com tais números impossíveis
não importa se bebemos um pouco

Enfim, há muitos escritores de tanka que deixamos de mencionar.


Definição

Tanka é um poema composto de cinco linhas, geralmente sem rima. A forma mais frequentemente citada é com 5, 7, 5, 7, 7 sílabas em cada linha, resultando em um comprimento total de 31 sílabas para o poema. Alguns seguem essa forma estritamente. A forma mais solta do tanka é o truncamento do comprimento de 31 sílabas de modo que uma, várias ou todas as cinco linhas são mais curtos do que os seus comprimentos formalmente prescritos. É essencial que as cinco frases sejam coerentes, não apenas uma lista e integradas em um poema unificado. A quinta linha deve ser a mais forte.


Conteúdo

Tanka difere de outros gêneros da poesia japonesa tanto em forma como em conteúdo. Pode ser um poema lírico já que foi a forma para expressar não somente louvor sobre amor impossível entre os amantes, mas também perda, saudade, e aspectos semelhantes da nossa vida emocional. Pode fazer uma ligação entre alguns aspecto da natureza e alguns aspectos da vivência humana, geralmente, as emoções. O assunto ou estilo de tanka não precisa ser limitado a esses. Muitos estilos e temas ainda não foram explorados em tanka, mas deveriam ser. Um exemplo é a crítica social que certamente pode funcionar muito bem sob a forma tanka.

Como o haiku, o tanka não tem título, rimas no final da linha, palavras capitalizadas, ponto final e faz uso de pouca pontuação. Pode ter mas não é necesssário: linha pivô ou zeugma, mudança de visão durante o poema, pausa após qualquer linha, encadeamento (emjambment), analogia entre natureza e natureza humana, metáforas, símiles, personificações e pode ainda contar apenas o meio de uma história, não a história completa. A maioria dos tanka é escrita na primeira pessoa.

Um tanka pode ser escrito basicamente como um haiku para as linhas 1, 2, 3, que trata de um assunto natural e, em seguida, mais duas linhas que pode lidar com uma experiência humana de forma que tenha ressonância metafórica, simbólica, ou outra com o haiku.

Linha pivô ou zeugma, geralmente a linha 3, é uma característica do tanka que pode estar ou não presente. A linha pivô pode ser lida com a linha 1 e 2 , e também com as linhas 4 e 5, uma propriedade que pode ser usada para introduzir ambigüidade e ressonância no poema.


Conclusão

Escrever tanka não é somente colocar juntos dois haiku. Tanka é um tipo de poesia própria para expressar não apenas os sentimentos de amor, mas também outros sentimentos como você mesmo pode descobrir. No tanka há uma troca de tempo, pessoa, voz, etc. com a finalide de criar uma nova relação.

O texto acima é uma breve introdução ao tanka e como tal, oferece apenas um apanhado geral para quem deseja começar a escrever tanka de imediato. No entanto, há muito mais para conhecer, aprender e praticar.


Bibliografia


* Garrison, Denis M.. Tanka Teachers Guide. USA.2007. ww.modernenglishtankapress.com
* Higginson, William. J. The Haiku Handbook. Kodansha International. 1985.
* Reichhold, Jane. Writing and Enjoying Haiku : A Hands-on Guide. US: Oxford
University Press, 2002.

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SÉRGIO PICHORIM


Sérgio Francisco Pichorim (23/4/1965) é natural de São José dos Pinhais, Paraná. Engenheiro Eletricista, mestre e doutor em ciências (MSc e DSc). Casado e pai de duas filhas, é professor da UTFPR (departamento de eletrônica).
Chegou ao universo do haicai seguindo as trilhas abertas pelo teólogo Leonardo Boff (de quem ouviu falar pela 1ª vez de Matsuo Basho) e por Rabindranath Tagore e pela poetisa paranaense Helena Kolody (com quem conheceu o haicai).
Na passagem de 1999 para 2000 conheceu a revista eletrônica Caqui de haicais (www.kakinet.com) e começou a participar da lista de discussão de haicai em português (haikai-l do yahoogrupos.com.br).
Participou do 14º Encontro Brasileiro de Haicai, realizado em Campinas no ano de 2002, onde foi contemplado com o 1º lugar no Grande Desafio (concurso de haicai).
Blog: Fieira de Haicais




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domingo, 18 de julho de 2010




Haicais têm o "Rumor das Ondas"
por José Marins

Benedita Azevedo lança mais um livro de haicais realizados a partir de suas vivências na Praia do Anil, onde reside em Magé-RJ. São 99 poemas no estilo clássico que nos aproximam da natureza, dialogam com o leitor numa linguagem simples, mostrando imagens que passariam despercebidas não fosse a percepção treinada da autora e sua fina sensibilidade poética. Afinal a poética do haicai é a da observação, dos sentidos e das sensações que captam a diversidade natural e as manifestações humanas de nosso povo.

Na apresentação escreve a haicaísta Rosa Clement: “É um nome muito apropriado para quem mora perto do mar, e tem o privilégio de sentir a brisa e ouvir com frequência o rumor das ondas, como é o caso da autora. Rumor das Ondas é, portanto, um livro que oferece uma variedade de matizes e formas de paisagens e atividades humanas. É um esforço recompensado e um merecimento.”

Ler mais esse livro de Benedita Azevedo é um privilégio e um prazer para quem ama a poesia do haicai.


Eis alguns dos poemas do livro:

Quietude na praia –
Só a aragem da manhã
E o rumor das ondas.

Ao sol da manhã
Reflexos brilham no pasto –
Noite de geada.

Cintilando ao sol
As bolhas de sabão
Caem na varanda.

Ao romper da aurora
Suave perfume no ar –
Outra vez setembro.


Para adquirir o livro Rumor das Ondas, entre em contato:
benesazevedo@yahoo.com.br

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quinta-feira, 15 de julho de 2010



SILVIO GARGANO JUNIOR
Silvio Gargano Junior nasceu em 1963 em São Paulo (SP), mas desde 1982, transita pelo interior paulista. Formado em Letras pela FAFITU e em Pedagogia pela CEUCLAR, já trabalhou como bancário, assistente de RH, comerciante e desde fevereiro/92 dedica-se ao magistério público. Atualmente leciona Língua Portuguesa e Literatura nas EE Antônio Augusto Lopes de Oliveira Júnior e ETEC Antônio de Pádua Cardoso, em Batatais(SP). Participou da antologia lançada pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores e do livro Mosaico das Letras, publicado pela AFPESP. Obteve o 3º lugar no Concurso de Haicais no 19º Encontro Brasileiro de Haicai em 2007; Menção Honrosa em 2000 na Etapa Regional do Mapa Cultural Paulista, na categoria contos e o 5º lugar no Concurso de Haicais Massuda Goga em 2008. Participa regularmente do grupo literário Haikai-L com vários haicais publicados no jornal Nippo Brasil. Teve vários poemas publicados na revista Nikkei Bungaku.




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Flavio Machado pergunta e o Haicaísta Celso Pestana responde


Nascido em Marechal Hermes subúrbio do Rio de Janeiro, em 04 de Fevereiro de 1959. Poeta suburbano, as primeiras experiências foram com teatro de bonecos no quintal de casa, em Oswaldo Cruz. Durante a adolescência começou a participação em festivais de música, o primeiro prêmio um terceiro lugar em 1976.
No início dos anos 80 a teve participação ativo nos movimentos literários. Participou de várias Antologias, entre elas: Cem poemas brasileiros e Veia Poética. Venceu alguns concursos de poesia. Publicou em vários suplementos e sites literários. Publicou o livro Sala de Espera em 2003, premiado pela Editora Blocos.

FLAVIO MACHADO: Tenho observado em vários autores brasileiros, o uso de pontuação no meio dos versos, essa prática é aceitável na adaptação do Hai Cai para o Brasil?

CELSO PESTANA: Os japoneses não usam pontuação como nós. Acho que é a isso que o Flávio se refere. Japonês pra mim é grego, e não deveria dar pitaco nesse assunto, mas acho que como o haicai brasileiro deve ser escrito em português, o que é próprio do português não deve causar estranheza no haicai brasileiro. A questão da vírgula no meio dos versos num haicai tupiniquim é a mesma de outros poemas: ela está bem colocada? Ela compromete o ritmo?

Vejam, por exemplo, como Edson Kenji Iura (http://www.kakinet.com) traduz alguns poemas de seus ancestrais:

meshidoki ya toguchi ni aki no irihi kage

Hora do almoço.
Pela porta, com os raios de sol,
As sombras do outono.

Chora

mono no oto hitori taururu kakashi kana

Algo faz barulho —
Cai sozinho, sem ajuda,
O espantalho.

Bonchô

Já a poeta Alice Ruiz gosta, talvez, de puxar os olhos de seus haicais, ocultando – e não suprimindo - toda e qualquer pontuação, o que também me parece interessante:

minha casa
o sapo já sabe
entrar e sair

amigo grilo
sua vida foi curta
minha noite vai ser longa


FLAVIO MACHADO: Outra prática e dar emoções “humanas” nos versos relacionados a animais e plantas?

CELSO PESTANA: Sei que o exemplo é infantil, mas um bom haicaista não diz que o cravo brigou com a rosa debaixo de uma sacada, etc. Também evita dizer que uma determinada árvore da Amazônia está deprimida com o desmatamento, ou que um passarinho está contente porque a manhã é de sol.

Aliás, um bom haicaista evita dar emoções em qualquer caso. O que ele faz é mostrar uma cena de tal jeito – e nesse tal jeito é que mora o busílis da arte – que desperte sentimentos no leitor, sem falar ou descrever o sentimento. Essa, me parece, é a principal característica do poemeto japonês. E a de mais difícil aceitação entre nós.

FLAVIO MACHADO: Podemos afirmar atualmente a existência de um modelo de Hai Cai brasileiro com regras básicas derivadas da tradição japonesa?

CELSO PESTANA: Sim, acho que se pode falar em “modelos” assim, apesar das diferenças entre eles. O Grêmio Ipê, presidido pelo já citado Edson – não se enganem com o sobrenome japonês -, é um deles. Outro é o da obra de Alice Ruiz, especialmente nos tercetos que ela assina com o seu nome de haicaista: Yukka.

Mas, se não se segue pelo menos as regras básicas da tradição japonesa qual o sentido de dizer que um poema é haicai? Costumo dizer que haicai brasileiro deve ser brasileiro e deve ser haicai.
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quinta-feira, 8 de julho de 2010

Deitando a amarra

por Douglas Eden, Guin ga

Geralmente, ao findarmos algum trabalho, resta algum material que não foi aplicado. Alguns o doam, ou jogam fora, por falta de espaço ou de imaginação; outros o guardam para utilização futura.

O mesmo ocorre na criação do haicai, ou no desenvolvolver do kasen: alguns versos imperfeitos, ou desprovidos de kigô; outros não apropriados ao estágio em que se desenvolve o kasen, ou mal sintonizados à estação do ano determinada, têm como destino o cesto do lixo.

Haicai e Kasen são gêneros poéticos aparentados entre si Pode-se dizer que o haicai que conhecemos hoje seja um subproduto do Kasen. Kigô é um termo da Natureza que se refere à estação do ano em que estamos escrevendo o haicai. Pode ser uma flor, uma planta, uma atividade humana própria da estação do ano em que se está, ao escrever o haicai.

Goga dizia que o haicai pertence ao momento em que o sentimento é expresso ao aflorar de uma sensação. A expressão desse sentimento emoldura-se nos três versos da tradição do haicai no Ocidente, ou nos 17 sons da tradição japonesa. Mas Goga dizia mais: dizia que passado esse momento ao qual o haicai é pertinente, o tanzaku torna-se um papelzinho inútil (tanzaku é o papel em que se escreve o haikai). Mas tão inútil como aqueles que os samurais enviados às côrtes dos reis de Espanha e ao Vaticano jogavam no lixo, após limparem o nariz, na valeta central das acanhadas ruas medievais, para espanto e curiosidade dos citadinos europeus do pós-Renascimento.

Não discordando da essência desse ponto de vista de nosso Mestre, dado o pesado lastro cultural em que se apoia, mas sinto de modo diferente: vejo beleza também nas pontas, nas aparas, limalhas e outrs sobras de algum trabalho, físico, material ou intelectual.

Dizem os cristãos que Deus, ao terminar a construção do mundo, colocou no Maine - pequeno estado à Nordeste dos EUA, lindeiro ao Atlântico Norte - as sobras do material que Ele usou.

O litoral do Maine e dos estados ao sul, até o Cabo Cod, é um dos mais pitorescos do mundo. Da pequena Nantucket partiam, no séulo XIX, os navios de caça à baleia, em longínquos Cruzeiros que abrangiam as mais altas latitudes alcançadas pelo Atlântico e pelo Pacífico. Demandando o norte deste último, alcançaram o Japão, em busca de pontos de apoio para abastecimento e reparos. Foram as necessidades destes pequenos navios, na passagem da navegação à vela para a navegaçãoa vapor, que forçaram a abertura do Japão para as nações do Ocidente, concretizada pelo Comodoro Perry com seus "navios negros". Após ela, caiu o último xogum Tokugawa, e restaurou-se o poder do Imperador, que comprendeu a conveniência em adaptar aos novos tempos. Instituiu a educação pública e o serviço militar obrigatórios. Modernizou a indústria e os transportes, e dotou seu Exército e sua Marinha de navios e armamentos produzidos no próprio país. Uma pequena fração dessa História foi mostrada no filme "O último samurai".

Abaixo, vou largando a amarra, por seções:

Seção 1:

O velho gaucho

devagar, remenda o poncho...
Sopra o minuano.

Um zunido entre os galhos
das árvores desfolhadas...

O homem curvado
passa lento, tendo à brida
um cavalo baio ...

Seção 2:

(Festival das Flores, comemorado
Manhã do Hanamatsuri -- ... na primavera, na Liberdade)
o monge , alegre , sorri ...

Abrindo o desfile
um grupo de escoteiros
puxa o elefante branco...

As poucas nuvens de chuva
se dispersam pelo céu ...

Seção 3:

Noite paulistana - -
Na Vinte-e-Três de Maio
os fluxos vermelho e branco.

Bem debaixo do viaduto
um grupinho bebe pinga.

Na festa do Ivan
dança-se até as cinco horas...
Vizinhos reclamam.

Seção 4:

O tempo esfriou muito súbito:
quase tive um choque térmico!

Seus braços morenos,
seus longos cabelos negros
envolvem-me em sonhos...

No dia seguinte, a manchete:
Apanhou da Namorada!

Guin Ga

A amarra é uma extensão de corrente bem grossa e pesada, dividida em seções de cores diferentes, que faz a âncora fixar-se ao fundo do mar com segurança, evitando que o navio seja levado pelas ondas ou por alguma correnteza, à matroca.

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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Entre a tradição do Haiga e nossa contemporaneidade digital
Tchello d´Barros

Não dá pra dizer exatamente quando a arte entrou em minha vida, ou se era um brinde que já veio no pacote. Lembro-me que aos cinco anos já desenhava no assoalho da casa e aos seis, na escola, declamei uma quadra, que meu avô materno me ensinou. A fotografia veio mais tarde, no início da década de 90, quando fazia teatro e comecei a publicar os primeiros versos. O que lembro de fato é que quando o haicai entrou em minha produção literária, nunca mais saiu, digamos assim. Creio que os poetas que entram no universo do haicai nunca mais são os mesmos, pois não se trata de aprender mais uma técnica ou métrica e sim de desenvolver outra percepção para nossas possíveis leituras do mundo, do homem, da realidade.

A fotografia em meu caso veio posteriormente a minha formação em artes visuais, tanto é que sempre imagino que não fotografo como um fotógrafo convencional, mas como um pintor, pois valho-me dos recursos clássicos da pintura, tais como a perspectiva, a luz-e-sombra, o equilíbrio cromático, a valorização da anatomia e principalmente os recursos de composição, usados pelos velhos mestres do Renascimento. Até aí, nada de novo sob o Sol, mas quando se é alguém que se expressa tanto com a palavra quanto com a imagem, é inevitável e até produtivo que ambos os caminhos se cruzem, se fundam se confundam... Nunca é demais lembrar que o próprio poeta Matsuo Bashô, que popularizou o haicai no Japão setecentista, ao final da vida dedicou grande parte de seu tempo ao estudo da pintura também.

Mas eis que um dia conheci o haicai e adentrando em seu universo de kigôs, tankas, rengas, haibuns e haigas, foi até natural que parte de minha produção adquirisse elementos do haicai, como a simplicidade, a síntese e condição de comunicar o apenas o necessário com os recursos disponíveis. Talvez o rigor seja a maior lição apreendida. Um rigor que em meu caso, migrou para o desenho, as gravuras e também para minha produção fotográfica. Isso ficou mais evidente ainda quando em 2.000 d.C. lancei Olho Zen, meu livro de haicais.

violetas azuis
esta tarde não passou
em brancas nuvens

Haicai de Tchello d’Barros, de 1.999 publicado em seu livro de haicais “Olho Zen” (Ed. Multi-prisma – Blumenau-SC – 2000 d. C.)

neve na cidade
miava o gato branco
e ninguém o via

Haicai de Tchello d’Barros, de 2.009 publicado no blog Haigatos, editado por Jiddu Saldanha

Aqui no ocidente, esse poemeto de origem nipônica medieval sempre suscitará acaloradas discussões, por questões, principalmente por questões de métrica e estilo. Uma de minhas controvérsias preferidas é exatamente a relação entre haicai e fotografia, já que pratico ambos, pois há sempre quem defina o haicai como a eternização de um momento, tal qual uma fotografia. Atualmente posso afirmar que há muito de haicai em minha obra fotográfica e vice-versa.

Não bastasse tudo isso, a gente vai atravessando o rio da vida e encontrando nossos pares, outros apaixonados por essas questões, como os artistas multimídia Chris Herrmann (poesia, letras de música, piano, arte digital) e Jiddu Saldanha (poesia, pintura, mímica, fotografia, vídeo). São parceiros queridos com os quais temos realizado algumas produções, inclusive os vídeo-haigas editados por Jiddu, com a sublime música composta e executada por Chris, cuja virtuose ao piano integra plenamente os haicais e fotos desse projeto. Na pós-modenidade em que vivemos, as fronteiras das linguagens artísticas estão mais livres e nesse sentido creio que esses vídeo-haigas são experimentações intersemióticas ou haigas verbi-voco-visuais, pois o trabalho é percebido mediante o sentido do texto, a imagem da fotografia e o som da música.



E assim seguimos adiante, como nas peregrinações de Bashô, deixando como rastro as possíveis emoções estéticas derivadas de nossa produção escrita, visual, musical e até mesmo digital. Evoé!

Tchello d’Barros
www.tchello.art.br
Junho de 2010 – Belém/PA.

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ANDRA VALLADARES
Andra Valladares nasceu em 24/09/1971, em Governador Valadares/MG, porém, considera-se capixaba por residir no Estado do Espírito Santo desde que tinha dois anos de idade. Formou-se em Direito no ano de 1995 e exerce a profissão de advogada desde então. Apreciadora de todas as formas de expressão artística, é também cantora, compositora e fotógrafa amadora. Neste ano de 2010 será nomeada membro da Academia de Letras Humberto de Campos e lançará seu primeiro CD profissional. Participou de mais de 20 antologias poéticas pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores e também teve um haicai e um poema de sua autoria publicados na revista bilingue Brasil Nikkei Bungaku nº 32 (junho/2009), organizada pela Associação Cultura l e Literária Nikkei Bungaku do Brasil. Na internet participa dos grupos literários Haikai-L e Movimento Internacional Poetrix.



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Cristiane Grando pergunta e o Haicaísta Celso Pestana responde


Cristiane Grando é autora de Fluxus, Caminantes, Titã e Gardens (poesia em português, francês, espanhol, catalão e inglês). Laureada UNESCO-Aschberg de Literatura 2002. Doutora em Literatura (USP, São Paulo), com pós-doutorado em Tradução (UNICAMP, Campinas), sobre as obras e manuscritos de Hilda Hilst. Professora convidada de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira na Universidad Autónoma de Santo Domingo (UASD) desde 2007. Diretora-fundadora do espaço cultural Jardim das Artes (Cerquilho-SP, Brasil, 2004) e do Centro Cultural Brasil-República Dominicana (São Domingos, 2009). http://www.letras.s5.com/archivogrando.htm


CRISTIANE GRANDO: É possível relacionar, em alguns casos, um haicai com uma natureza morta? Gostaria que desse alguns exemplos de haicais que podem remeter a quadros (natureza morta, paisagem, etc).

CELSO PESTANA: Natureza-morta é um gênero de pintura em que se representam frutas, flores, livros, taças de vidro, garrafas, jarras de metal, porcelanas, dentre outros objetos. O foco de uma natureza-morta são esses objetos. Outros tipos de pintura podem ter objetos entre seus elementos, mas com um foco diferente.

O foco do haicai não são os objetos, e, portanto, não se pode falar em natureza morta nesse poemeto; mas, como os objetos fazem parte da nossa vida, aparecem aqui e ali na obra dos mestres. Por exemplo:

Mingau branco

Numa tigela imaculada –
A luz do sol do Ano-Novo.
(Josô)


No orvalho da manhã,
Sujo e fresco,
O melão enlameado.
(Bashô)


Na sopa fria,
Refletidos,
Os bambus do quintal.
(Raizan)


Primeiras neves –
Meu maior tesouro,
Este velho penico
(Issa)


Acho muito importante ter em mente que, quando se fala em foco no haicai, é preciso distinguir entre o objetivo, aquele que é descrito, e o subjetivo, aquele que é despertado pela descrição objetiva. Um bom haicai não prescinde deste último. Penicos, paisagens, marinhas, etc., em minha opinião, servem a esse propósito.

Mas há pelo menos uma tentativa entre nós de pintar uma natureza morta em três versos:

Natureza morta.
Frutos, caça, vinhos?
Não.
Maletas de couro.

Oldegar Franco Vieira (http://sopadepoesia.blogspot.com/2009/06/tres-haicais-de-oldegar-franco-vieira.html)

Não sei se é legal pintar um quadro tão pequeno e lhe colar uma etiqueta como a do primeiro verso desse poema.

CRISTIANE GRANDO: Quanto é permitido ao poeta fugir da concisão ao criar um haicai? Quais os casos de haicais mais extensos que você conhece?

CELSO PESTANA: A um bom poeta tudo é permitido. Se ele não quiser ser conciso ao criar um haicai, nada o impede. A questão é: por que o faria? Por que criar um haicai se não se pretende ser conciso?

Bashô falou da rã assim:

O velho tanque –
Uma rã mergulha,
Barulho de água.

Pessoa, alma de amplos mares, preferia, talvez, às finas fatias de um sashimi uma dobrada à moda do Porto – e que não a servissem fria! E escreveu assim sobre o anfíbio:

Todas as cousas que há neste mundo
Têm uma história,

Excepto estas rãs que coaxam no fundo

Da minha memória.

Qualquer lugar neste mundo tem

Um onde estar,

Salvo este charco de onde me vem

Esse coaxar.


Ergue-se em mim uma lua falsa

Sobre juncais,

E o charco emerge, que o luar realça

Menos e mais.


Onde, em que vida, de que maneira

Fui o que lembro

Por este coaxar das rãs na esteira

Do que deslembro?


Nada.
Um silêncio entre juncos dorme.

Coaxam ao fim
De uma alma antiga que tenho enorme
As rãs sem mim.


Fernando Pessoa, 13-8-1933.

Navegar é preciso, mas escrever haicais é uma escolha – e não é uma escolha fácil.

Quanto à segunda parte da pergunta, não conheço nenhum bom haicai que seja mais extenso que o necessário.

CRISTIANE GRANDO: O haicai é formado por apenas uma estrofe ou há casos de haicais que são formados por duas estrofes?

CELSO PESTANA: Aquilo que no Brasil chamamos de haicai, e que é conhecido no resto do mundo por haiku, é formado por apenas uma estrofe. Há outra forma poética japonesa chamada tanka, constituída por um terceto e um dístico, e há alguns haicaistas brasileiros que a exercitam. No entanto, já vi um de meus mestres dizer que a maioria desses tankas não têm relação com a arte japonesa e são apenas uma maneira de burlar a restrição dos três versos para dar vazão à nossa verborragia ocidental.

Sobre a evolução (tanka, haikai-no-renga, haiku) e as características do haicai, recomendo a introdução do Prof. Paulo Franchetti no seu livro Haikai (com Elza Taeko Doi e Luiz Dantas), de onde, aliás, tirei as traduções acima.

quinta-feira, 13 de maio de 2010



PAULO FRANCHETTI

Paulo Franchetti é professor titular do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
É mestre em Teoria Literária pela Unicamp (1981), doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (1992) e Livre-Docente pela Unicamp (1999). Desde 2004 é Professor Titular.
Atua na área de Letras, com ênfase em Teoria Literária, Literatura Brasileira dos séculos XIX e XX e Literatura Portuguesa do século XIX.
Desde 2002, dirige a Editora da Unicamp, cujo Conselho Editorial preside.
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